DESPEDIDAS
Nosso
espaço, escrivaninha de estudar, cama
de dormir. Coisas de apartamento divididas
com outros colegas estudantes, moradores.
Algumas panelas, poucas comidas. Cardápios
repetidos, massas instantâneas. O xis
era sempre mais gostoso. Cachorro-quente e
coca-cola. Panos de prato meio encardidos.
Cômodos pequenos, mas sempre cheios
de gente, das nossas histórias. Mesas
que agüentaram o peso dos nossos livros,
paredes que escutaram nossas ansiedades. Portas
que se abriam e fechavam e nos deixavam livres.
Livres pra chegar a qualquer hora e se sentir
em casa. Porta-retratos com fotos divertidas,
alguns vasinhos com flores tentavam dar a
impressão de casa de verdade, lar,
família, abrigo, proteção.
Almofadas ou sofás testemunharam nosso
sono e cansaço depois de longas jornadas
de aulas e festas. Lâmpadas que iluminaram
nossas noites de estudo na véspera
das provas. Janelas que permitiram que o sol
nos acordasse de manhã. E foram tantos
despertadores...Que nos faziam levantar a
cada dia em busca do nosso sonho. Tinha também
os vizinhos, conhecidos. As cartas na caixinha
do correio. Contas de luz pra pagar. Dia de
faxina. Muita louça suja na pia. Dia
de tirar o lixo. Minha vez de limpar o banheiro.
Compras no supermercado. Tardes com chimarrão
e pipoca. Visitas inesperadas. Dias de chuva
em que as janelas ficaram abertas. Chegadas
e saídas. Nosso lugar, nosso espaço.
Nossas manias. Tirar o pó. Desligar
o gás. Rotina diária. O barulho
da fechadura quando tinha alguém chegando.
Lugar de todas as coisas, tantas passagens
e acontecimentos. Travesseiros cheios de lágrimas
de angústia, saudade, medo, raiva.
Copos de requeijão. E agora... Hora
de juntar tudo , encaixotar louças,
voltar pra casa ou ir pra longe. Redividir
os móveis. Não deixar nada pra
trás. Fechar as malas e partir em busca
de outros rumos, novos lares, novos sonhos.
Mochilas com bichos de pelúcia inseparáveis,
mesmo que não sejamos mais crianças.
Menos brinquedinhos, mais livros e muito mais
responsabilidade. Recomeçar, partir
pra outra...
Engraçado é que a bagagem não
diminui nunca, “nossos cacos”
só vão aumentando, nossa experiência
também. Mas o que mais cresce além
da bagagem é a saudade desse tempo
que não volta.
Não volta naquele ônibus pra
faculdade e nem mesmo naquelas coisas de acadêmico,
estudante.
Daqui pra frente teremos que ter espaço
pra tantas coisas...já que é
tão difícil colocar alguma coisa
fora. Sempre tem uma porcariazinha que nos
faça lembrar de um momento bom. E é
difícil colocar fora porque parece
que a nossa memória não vai
dar conta de guardar tudo. Precisamos do guardanapo
que o fulano deu naquele bar quando fomos...e
aquela pedrinha da sorte que ganhamos no dia...e
uma pétala já seca de uma flor
que caiu num momento em que passávamos
embaixo da árvore perto da...
Parece que as nossas coisas materiais nos
trazem de volta aos momentos legais que passamos
na vida. Claro que a vida é muito mais
que isso e que quando partirmos pra outra,
não levaremos coisas, bens materiais.
Mas enquanto estivermos aqui nesse planeta,
estou certa de que sempre teremos malas cheias
de coisas pra levar de um lado pra outro.
Lembranças inesquecíveis que
nunca perderemos pelo caminho. Porque carregamos
nosso passado, que tem partes leves e outras
pesadas. E além das nossas lembranças,
nossas malas tem que ter espaço para
os nossos sonhos e planos que não acabam
nunca!
Escrevi
isso enquanto juntava minhas coisas em Passo
Fundo pra trazer de volta pra casa. Ainda
sem rumo, mas com muitos planos eu já
sinto muito a falta de todo mundo. Acho que
não há um só dia em que
eu não pense na nossa passagem pela
faculdade, na nossa amizade. Mas me considero
a pessoa mais feliz do mundo por ter feito
o que sempre quis, ter os amigos que sempre
quis e o melhor de tudo, por saber que em
breve a gente vai se encontrar...