| Dentre
as condutas utilizadas para o tratamento do
câncer, a quimioterapia e a radioterapia
são responsáveis por inibirem
o crescimento ou destruírem totalmente
as células neoplásicas. No entanto,
essas terapias não diferenciam as células
neoplásicas das células normais
que se proliferam rapidamente, como as mucosas
da boca ou da medula óssea, por exemplo.
"A quimioterapia é uma modalidade
de tratamento sistêmica, pois produz efeitos
orgânicos gerais, principalmente no trato
gastrointestinal, agravando condições
bucais pre-existentes", explica o chefe
da Seção de Estomatologia do Instituto
Nacional do Câncer - Inca, Marcos Caminha
Monteiro.
Assim como a radioterapia, a quimioterapia causa,
entre outros efeitos colaterais, xerostomia
(boca seca) e mucosite, que é a degeneração
progressiva do epitélio de revestimento
das mucosas. "Em casos avançados
(estádio IV), a mucosite se apresenta
sob a forma de inúmeras lesões
ulceradas, o que significa uma possível
porta de entrada para infecções
sistêmicas, que podem ser letais",
afirma Monteiro. "Devido às condições
hematológicas desfavoráveis como
a leucopenia, por exemplo, infecções
secundárias (candidíase) estão
muitas vezes presentes."
Segundo o coordenador do Serviço de Medicina
Bucal do Centro de Oncologia do Hospital Sírio
Libanês, Henry Bittar Bufarah, aproximadamente
40% dos pacientes tratados com quimioterapia
podem precisar do tratamento odontológico.
Estes, normalmente, são os pacientes
que fazem o tratamento contra tumores sólidos.
Os pacientes submetidos à quimioterapia
de alta dose, para combater cânceres no
sangue, por exemplo, ficam internados e cerca
de 60% deles tem mucosite até graus três
e quatro, que são os piores tipos na
escala WHO. "Se for transplante de medula,
pode-se dizer que 75% deles tem mucosite de
graus três ou quatro. Isso quer dizer
que quase toda a população internada
com este problema vai precisar de um Cirurgião-Dentista",
diz Bufarah.
As chances de a quimioterapia causar danos à
cavidade oral acentuam-se dependendo da idade
do paciente. De uma maneira geral, 40% dos pacientes
submetidos ao tratamento de quimioterapia desenvolvem
esses efeitos na boca, passando para mais de
90% quando aplicada a crianças com menos
de 12 anos. Embora os pacientes dessa faixa
etária tenham tendência a desenvolver
tumores malignos que causam alterações
bucais por si sós, também parece
provável que o elevado índice
mitótico das células da mucosa
da boca seja um fator adjuvante nesse grupo
etário. Além disso, doenças
malignas do sangue, como leucemia e linfoma,
também podem estar associadas a uma grande
freqüência de complicações
bucais, assim como os neoplasmas do trato gastrointestinal.
Para Monteiro, o papel do Cirurgião-Dentista
nesses casos é fundamental para evitar
que essas alterações e complicações
bucais ocorram e, caso se manifestem, tratá-las.
"A quimioterapia deverá ser iniciada
concomitantemente com aplicações
diárias de laser de baixa intensidade
de potência, produzindo, assim, um efeito
biológico positivo (processo chamado
bioestimulação), evitando o aparecimento
das mucosites orais", recomenda. Vários
estudos realizados no mundo, segundo o chefe
da Seção de Estomatologia do Inca,
mostram a eficácia comprovada do laser
low intensity ou soft laser. Os efeitos bioestimuladores
desse tipo de laser atuam nos citocromos mitocondriais,
resultando em produção de ATP,
aumentando o metabolismo celular (propriedade
de cicatrização).
"Alguns estudos incluem propriedades anti-inflamatórias
pela diminuição de secreção
de prostaglandina, que possui também
efeito anti-edematoso baseado na dilatação
dos vasos linfáticos, na redução
da permeabilidade dos vasos
sangüíneos e, principalmente, a
diminuição imediata da dor –
pelo mecanismo da modulação de
nocioceptores, modificando a ação
dos impulsos nervosos e da secreção
de beta-endorfinas e encefalinas", relata
Monteiro. "Também fazemos uso de
substâncias como enzimas antibacterianas
específicas, como lisozinas, lactoperoxidase
e glicose oxidase, sem álcool, evitando
injúria celular e quadros infecciosos."
Aproximadamente uma semana ou 15 dias após
a sessão de quimioterapia, o paciente
entra em imunossupressão, que é
a queda da resistência. Nesse período,
qualquer foco de infecção odontogênica
ou periodontal preexistentes pode representar
um grande risco de o paciente desenvolver infecções
bucais. "Para cada tipo de tumor existe
um protocolo, tanto de drogas como do número
de ciclos. Todos eles levam à imunossupressão.
Todos levam a uma queda de resistência
do organismo", explica o titular do Departamento
de Estomatologia do Hospital do Câncer,
Marcos Martins Curi. "No pico maior de
imunossupressão, aquele quadro que estava
sendo controlado naturalmente pelo organismo
pode se alastrar ou se agudizar. Essas infecções
agudizadas podem levar à bacteremia."
Em alguns desses casos, o paciente precisa ser
internado, o que representa um aumento no custo
do tratamento, alteração na qualidade
de vida e aumento nas chances de óbito.
Muitas das complicações bucais
vindas da quimioterapia são tão
agudas e complexas que chegam ao ponto de interromperem
o tratamento oncológico. "É
sempre bom tentar prevenir para não ter
de interromper um tratamento", aconselha
Curi. E a prevenção só
é feita com o atendimento odontológico
antes do início do tratamento de oncologia.
"Geralmente, o atendimento odontológico
prévio não visa a tratar tudo."
O que o Cirurgião-Dentista deve fazer
nessa fase é apenas tratar as possibilidades
de infecções dentárias,
como tratamentos endodônticos ou cáries
mais extensas. "Essa abordagem odontológica
antes do tratamento visa à parte mais
urgente, que representa risco de infecção
para o paciente. O restante pode ser feito durante
o tratamento de quimioterapia, entre os ciclos."
Mas, em alguns tipos de câncer, como o
linfoma de Hodgkin (que apresenta uma evolução
muito rápida), o tratamento começa
imediatamente após o diagnóstico
e não há tempo para o atendimento
odontológico prévio. Nesse caso,
é iniciado o tratamento oncológico
e, quando o paciente melhorar, terá uma
resposta a esse tratamento; então, entre
um ciclo e outro, será o momento adequado
de haver uma intervenção para
o tratamento odontológico.
Dentre os efeitos colaterais causados na boca
de crianças submetidas ao tratamento
quimioterápico, podem ocorrer alterações
na formação dos ossos da maxila
e da mandíbula e de odontogênese,
porque é uma fase em que todos os tecidos,
os dentes e os ossos estão se formando.
"Dependendo das seqüelas, a mais comum
é não formar dentes, dependendo
da idade da criança e da gravidade dessas
alterações, as reabilitações
são feitas mais tardiamente e não
nesse momento. O grande desafio hoje é
fazer essas reabilitações. Uma
das possibilidades que nós temos é
reabilitar a parte dentária com implantes
osseointegrados. É uma boa alternativa
para a reabilitação de pacientes
jovens", conclui Curi.
Um dos efeitos colaterais da quimioterapia de
grande relevância para a Odontologia,
embora raro, representando apenas cerca de 6%
das complicações bucais, é
a neurotoxicidade, pois o envolvimento dos nervos
bucais pode causar dor odontogênica, o
que é bastante semelhante à dor
da pulpite. Esses sintomas, freqüentemente,
desaparecem com a suspensão das drogas.
Jornal
da APCD – janeiro de 2003. |