INTRODUÇÃO
Gengivite
ulcerativa necrosante aguda (GUNA) é uma doença infecciosa
que resulta em gengivite aguda, sendo caracterizada
por ulceração e necrose da margem gengival e destruição
das papilas interdentais. Originariamente foi confundida
com as manifestações bucais do escorbuto, porém a
partir do momento em que se suspeitou da participação
de microorganismos, delineou-se uma nova entidade
patológica relacionada aos tecidos gengivais. Nos
anos 80, Plaut e Vincent sugeriram que a GUNA era
causada por um microorganismo fuso-espiroqueta. A
GUNA tornou-se importante do ponto de vista epidemiológico,
durante a I Guerra Mundial, devido a sua alta prevalência
entre os soldados da linha de frente, engajados nas
operações militares das trincheiras. Popularmente
era conhecida como "boca da trincheira" e, tendo em
vista sua aparente ocorrência dentro das comunidades,
era considerada contagiosa (Pickard, 1973). Embora,
hoje, não seja considerada transmissível, os mecanismos
patogênicos ainda são um pouco obscuros, por se tratar
de uma doença complexa. As bactérias atualmente implicadas
na etiologia da GUNA - espiroquetas (Loesche et.,
1982), bactérias fusiformes e bacteróides intermédius
- parecem funcionar como patógenos oportunistas que
requerem alterações teciduais subjacentes para se
tornarem patogênicos.(Rosenbury e Sonenwirtt, 1958;
Listgarten, 1965). 2,3,4,5
EPIDEMIOLOGIA
Estudos
fundamentados em 3 critérios: dor, sangramento e inversão
papilar mostraram baixa prevalência na população e
pequena variação quanto ao sexo, raça e condição sócio-econômica.
A maior ocorrência é a partir da adolescência até
os 25, 30 anos aproximadamente.(Stevens et al.; 1984;
Falkler Jr. Et al.; 1987; Smith, 1965).2
ETIOLOGIA
E ETIOPATOGENIA
Existe
uma participação conjunta de fatores locais e fatores
sistêmicos no desenvolvimento da GUNA, sendo impossível
especificar apenas um dos fatores como o mais importante.(Kardachi,
1974; Johnson & Engel, 1960). Os fatores locais mais
comumente implicados na iniciação a GUNA são os microorganismos,
pois a GUNA se debela rapidamente frente à medicação
antibiótica levando a maioria dos autores a acreditarem
na participação dos microorganismos da cavidade bucal
no desenlance da doença. Loesche et al,1982, analisando
amostras de placa bacteriana de pacientes com GUNA,
observaram a presença constante de determinados tipos
de microorganismos: Treponema sp, Prevotella melaninogenica,
Prevotella intermedia, Fusobacterium sp, Selenomonas
sp. Contudo, estas bactérias por si só não são capazes
de induzir o início da lesão gengival, sendo detectadas
apenas nos estágios de GUNA já instalada. O autor
admite que substâncias esteróides possam funcionar
como elementos nutritivos, pois estão relacionadas
a um aumento no nível de corticosteróides provenientes
da glândula supra-renal de pacientes em condições
clínicas de estresse emocional; em especial para o
Prevotella melaninogenica intermedia. 2
Listgarten,
1965, pôde comprovar a invasão de tecidos gengivais
por espiroquetas em áreas de tecido ulcerado. As zonas
vistas da porção mais superficial em direção à mais
profunda são: 1) zona bacteriana: apresenta diversos
tipos de bactérias, além de espiroquetas de tamanhos
pequeno, médio e grande. 2) zona neutrófila: apresenta
uma grande quantidade de neutrófilos, espiroquetas
e poucos microorganismos do tipo fusiforme. 3) zona
necrótica: há a caracterização de uma desintegração
tecidual, material fibrilar, remanescentes de fibras
colágenas, poucos microorganismos e espiroquetas de
tamanho médio e grande 4) zona de espiroquetas: é
caracterizada pela presença de espiroquetas médias
e grandes que permanecem nos espaços intercelulares,
não se observando a presença de outros tipos de microorganismos.
Microorganismos da placa bacteriana do paciente com
GUNA, estariam paralelamente agindo através de seus
elementos tóxicos e enzimáticos. 2,5
Há
estudos comprovando o papel da nicotina como agente
local indutor de vasoconstrição periférica, o que
contribuiria para uma isquemia na gengiva papilar
que somada a outros agentes vasoconstritores sistêmicos
(descarga de catecolaminas) levaria à necrose gengival.
A posterior ulceração do tecido conjuntivo explicaria
a dor em virtude dos estímulos físicos e químicos
sobre as terminações nervosas. (Janis et al, 1974).
2
É
possível que a má higiene bucal, propiciando a proliferação
de microorganismos, represente o evento clínico mais
importante a ser combatido, isso porque sempre que
se removem os agentes agressores locais há uma regressão
rápida da sintomatologia dolorosa. O trauma físico
sobre o tecido gengival pode funcionar com agente
predisponente ao desenvolvimento da GUNA, principalmente
em áreas de erupção dentária e eventual mastigação.
1,2
As
doenças sistêmicas mais freqüentes associadas à GUNA
são as discrasias sanguíneas (Barling, 1948; Levy
e Schetman, 1961; Wintrobe, 1967). A incidência de
GUNA é extremamente alta em pacientes com leucemia
mielogenosa aguda. Os microorganismos infectantes
da GUNA podem ser superpostos aos tecidos gengivais
com mecanismos de defesa enfraquecidos, como resultado
de leucemia. Outros doenças sistêmicas associadas
à GUNA são desnutrição grave (Miller e Greene, 1958;
Pindborg et al., 1967; Enwonwu, 1972; Jiménez e Baer,
1975) e doenças debilitantes (Listgarten, 1965), como
câncer, intoxicação por metais, AIDS e nefropatia
avançada . Muitas condições sistêmicas predisponentes
associadas à GUNA envolvem diminuição do número e
função de leucócitos. 1,2
A
GUNA afeta adultos jovens que aparentemente são saudáveis,
pode ter o estresse emocional como fator predisponente
primário. Com freqüência, a GUNA está intimamente
associada com situações emocionalmente desgastantes
ou que resultam em ansiedade aguda (Cohen-Cole et
al., 1983). A tensão em um indivíduo com resposta
de enfrentamento ineficiente pode resultar em diminuição
da função leucocitária. (Cogen et al., 1983). 2
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